Dizem as autoridades que, a começar pelos próprios moradores e com exceção dos especuladores, todos querem conter o avanço desordenado das favelas cariocas sobre as matas vizinhas. O problema é como fazer isso. O governo do estado acha que é com muros, e já está construindo um dos onze que prometeu. Alguém insinuou que esse recurso é uma espécie de consagração da cidade partida. Espero que essa não tenha sido a intenção dos idealizadores, mas o resultado pode ser o mesmo. Numa terra em que tudo se transforma em símbolo - o Pão de Açúcar, o Corcovado - esses paredões de cimento vão ganhar um significado emblemático da pior espécie, evocando exemplos de má fama como o Muro de Berlim, ou da "Vergonha", o da Palestina e o dos EUA na fronteira com o México. Para disfarçar, a Empresa de Obras Públicas do estado pretende pintar de verde essas muralhas ou plantar heras junto a elas. É muita falta de criatividade. Se é para fingir que o concreto é verde, por que não colocar logo cercas vivas ? Garanto que a solução teria o apoio do ministro Carlos Minc, porque, entre outras vantagens, levaria para os morros a onda verde, ajudando a difundir a consciência ecológica entre os moradores. Posto que não sou especialista, fiz uma despretensiosa pesquisa na internet e constatei que os muros ecológicos podem ser não só mais corretos do ponto de vista ambiental como visualmente mais bonitos e sem carregar o estigma do apartheid. A cerca de cipreste foi a primeira busca, porque ficou na minha memória como inexpugnável. O meu grupo de adolescentes, em Friburgo, tentou durante anos furar uma barreira dessas para entrar num clube do qual não éramos sócios. Jamais conseguimos. A cerca não dava passagem. Agora, a opção mais interessante que descobri foi o sansão-do-campo. Os sites de plantas informam que se trata de um arbusto que cresce rápido, atinge quatro metros de altura, dura mais de 50 anos, não exige podas e dá flores brancas oito meses por ano. Além de ideal como ecolimite, é uma eficaz cerca de proteção, pois forma uma barreira contra invasores. "Os seus 300 espinhos por m2 são capazes de segurar até gado", explica um especialista. Diante disso, faço um apelo ao governador: dê uma chance ao sansão-do-campo. Peça a juda da Embrapa Agrobiologia de Seropédica e, em vez de muro de concreto, plante experimentalmente um muro ecológico. As fábricas de cimento não acharão graça, mas o meio ambiente e a cidadania vão agradecer.
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(O Globo, 08/04)
6 comentários:
Ivanildo,tbm acredito que fica mais bonito, uma cerca viva. No entanto, o tempo e, principalmente a fiscalização durante e depois do crescimento dessa cerca é o maior inimigo da solução. Depois, será que dá pra compara os adolescentes daquela época de Friburgo com os das favelas de agora? Por fim, será que o Sansão do governador vai ser mais eficiente qto o Sansão do prefeito? O trânsito da cidade ainda não melhorou.
Meu Deus do Céu! Será que o Zuenir e a imprensa de um modo geral perderam a capacidade de distinguir discussão de um problema com problema de uma discussão?
Ao discutirmos se o casamento de uma moça deve ser realizado ou não, qualquer debate sobre o véu que deve ser usado na cerimônia é descabido e fora de propósito.
Antonio Fernando e Alberto, desculpem, mas acredito que Vocês estão falando sem conhecimento da causa. Não daquela relação causa-efeito, nada disto. A causa é a do Zuenir que, a meu experiente ver, é corretíssima. Conheço as cercas de sansão-do-campo e sou seu defensor intransigente. Já vi em fazenda uma cerca dessas conter um boi bravo que não conseguiu ultrapassá-la. Agora, resta saber se os moradores do morro se satisfariam com isto. É provável que, à medida em que fossem plantados os arbustos, eles os arrancariam Gente ignorante acha que o que se move no mato é para matar e o que não se move é para queimar ou abater, já me dizia o velho avô, que não era ignorante mas era sábio. Com isto, mesmo defendendo em teoria a causa do Zuenir, acho que o melhor mesmo é o tal muro que, do lado da favela deveria estar separado por um fosso, de modo a que os moradores não se sirvam do muro como parede para novas casas.
Caro Carlos,
Talvez não tenha me feito entender, completamente. Conheço o sansão do campo já tendo visto algumas cercas em fazenda e condomínios praianos. Elas seguram bois bravos e impedem acessos à condomínios/residências. Mas só isso. Poderiam plantar sansão ao pé do tal muro de concreto que talvez impeça construções junto a ele. Qto aos moradores desses locais, quem os descreve com perfeição é o Miguel Falabela - docinho de caju, .... e quase todos são contra qqer tipo de vegetação, cimentando seus quintais, na primeira oportunidade.
Amigos comentaristas: Me desculpem mas nenhum de vocês (nem o Zuenir) foi ao cerne da questão.Não tem a menor importância de que é feito o muro, de concreto, de hera, de sansão-do-campo; o muro, seja feito de qualquer coisa, não vai impedir a expansão das favelas. Mas, o mais importante: o muro é como a velha piada de tirar o sofá da sala. A solução, bem mais trabalhosa (e por isso mesmo deixada de lado) é evitar que existam favelados. Uma ação social profunda cujo gran finale seria a construção de conjuntos residenciais que abrigassem toda a população ora dependurada nos morros. Dinheiro é que não falta. O sapo barbudo não acabou de emprestar 10 bilhões de dólares para o FMI ?
O Hélio disse Exatamente o que penso. Mais uma aula de pensar não basta, o importante é comunicar.
Feliz Páscoa para todos!
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