No tempo antigo, cronista sem assunto novo costumava escrever sobre a falta de assunto. Hoje, a gente pode fazer diferente: escrever mais uma vez sobre problemas não resolvidos. É o que não falta.
Por exemplo, a velha questão da Comissão de Ética Pública do governo federal. Ela continua a ser o patinho feio do governo, e não parece ter qualquer chance de virar cisne. Não na atual administração, não sei se por descuido ou precaução.
Em todo o governo Lula, a comissão conseguiu dar raros puxões de orelhas bem-sucedidos. O mais notável foi em 2007, quando exigiu que o ministro Carlos Lupi escolhesse entre a pasta e a presidência do PDT. Ele se licenciou do cargo político, pelo menos formalmente.
Em outro episódio, o assessor Marco Aurélio Garcia foi censurado por atitude imprópria, por ter feito um gesto obsceno, ao saber que uma falha mecânica poderia ter causado o acidente com o avião da TAM em São Paulo. Lamentavelmente não partiu do Palácio do Planalto qualquer manifestação de endosso do pito no assessor.
Hoje em dia, a comissão trabalha com apenas quatro integrantes, em vez dos sete previstos na lei que a criou. Como são precisos exatamente quatro votos para qualquer decisão, basta uma ausência para que o órgão não se manifeste. O que, pelo visto, é o estado de coisas ideal para muita gente.
Não é fácil completar o quadro de conselheiros. Precisam ser cidadãos respeitáveis que se disponham a tomar decis~]oes empre mal recebidas pelo Palácio do Planalto, e além disso trabalhando de graça. A comissão paga a seus membros apenas alimentação, transporte e hospedagem durante suas reuniões.
Pelo menos na atual administração, não se deve esperar alguma mudança que mostre algum carinho pela ética pública. Ao contrário, os recursos destinados anualmente à comissão caíram este ano para R$ 155 mil. Foram R$ 380 mil no ano passado.
A má vontade do governo nessa área é mais prova de tolice do que de má-fé. Não se conhece uma só decisão da comissão que lhe tenha criado grandes problemas. Ao contrário, prestigiar um órgão que zele pela honestidade na coisa pública é prova de boas intenções, de zelo pela coisa pública. Afinal, que mal fez ao governo o puxão de orelhas no ministro Lupi ? E não foi merecido o pito em Marco Aurélio ?
Querendo, o Planalto pode encontrar sete homens justos para zelarem pela boa-fé e os bons modos na administração do país. Marcará um ponto a seu favor e ganhará um argumento para ser usado na sucessão presidencial.
Continuando a sabotar, ainda que apenas por inação, o trabalho da comissão, o governo Lula estará oferecendo de graça um tema para seus adversários.
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(O Globo, 12/05)
Um comentário:
Pura falta de assunto.
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