domingo, 5 de outubro de 2008

As Gralhas Enfurecidas (003)

Já publicado:
Gralhas 001 - 21/9/08 – Sinopse
Gralhas 002 - 28/9/08 – Nota do Autor

UM
Luiz Felipe de Souza Neto foi professor de português quando ainda estava na Faculdade de Direito. O salário, embora pequeno, ajudava-o a pagar os estudos, reduzindo as despesas no orçamento familiar tão bem administrado pelo pai. No ano em que se formou, convenceu-se de que não podia continuar brincando de professor, ainda que isto lhe agradasse muito, e de que deveria começar a exercer a Advocacia. Conseguiu uma vaga no escritório do Dr. Silas Cardoso, onde trabalhava à tarde, indo direto da Faculdade para o escritório, no centro da cidade.
Mas não se entusiasmou com a atividade. Percorrer os corredores sempre engarrafados do Fórum, entregar petições, recursos que ele não escrevera, não fazia parte dos sonhos que alimentara quando entrou para a Faculdade. O salário que recebia, como estagiário, era um pouco menor do que o que recebia no colégio. Estava ganhando menos e sentindo-se infeliz. Percebeu que seria mais um bacharel em Direito que não exerceria a profissão.
Luiz Felipe decidiu sair. Respondeu a um anúncio de uma firma internacional de auditoria, fez os testes e foi aprovado.
Luiz Felipe não gostava nem entendia muito bem o que fazia e vivia permanentemente viajando por todo o país. Estava outra vez absurdamente desmotivado e entediado. E assustado. Tentou, então, uma transferência para o Departamento de Impostos, basicamente para fugir das viagens e também porque, é o que se dizia, era o setor de elite da empresa, onde eram admitidos somente formados em Direito. Mas não conseguiu, porque, apesar de ser Advogado, não possuía o diploma da Faculdade de Ciências Contábeis. Quando conversou com o Gerente do escritório, foi devidamente aconselhado a obter o tal diploma, sem o qual, o Gerente foi muito claro, “você não tem perspectivas aqui”.
Não, ele não faria outra Faculdade. Sentia-se um fracasso aos vinte e seis anos de idade, tendo sido professor, aprendiz de advogado, com um diploma, enrolado e empoeirado, guardado no fundo da gaveta. Na verdade, estava se considerando sem perspectivas na firma de auditoria e na vida.
No final dos anos sessenta, ocorreram modificações importantes na legislação do imposto de renda e o pai de Luiz Felipe decidiu não enfrentá-las, na Companhia de Seguros onde trabalhava. Resolveu aposentar-se. O patrão, que estava muito satisfeito com seu trabalho, convenceu-o a ficar por mais cinco anos, oferecendo-lhe um razoável aumento no salário e a contratação de um bom assessor.
Luiz Felipe foi convidado a trabalhar com o pai, aceitou e, com um salário duas vezes maior, assumiu o cargo de assessor da Diretoria da Seguradora de Paris.
O pai não se aposentou porque morreu um ano antes do término do contrato. Luiz Felipe substituiu-o e tornou-se o segundo nome na Companhia de Seguros. E lá estava há dezesseis anos, durante os quais presenciou mudanças na Diretoria Geral, sempre ocupada por franceses, e participou ativamente do processo de fusão com uma Seguradora brasileira. Não perdeu posição por causa da associação, pelo contrário, foi promovido a Diretor, mas, se antes era um assessor respondendo diretamente ao Diretor Geral, agora era mais um membro de uma Diretoria composta por seis pessoas. Recebia, face ao tempo de serviço, o segundo salário da casa, abaixo do Diretor Geral que, obviamente, continuava sendo um francês.
Nos quarenta minutos do percurso entre a casa e o escritório, Luiz Felipe viu passar todo o filme de sua vida, convencido de que a reunião da Diretoria, naquela fria manhã de junho, na qual seriam informados os honorários para o segundo semestre do ano, traria novas alterações em sua vida profissional.
O Diretor Geral, um francês de um metro e sessenta e cinco, com o inevitável nome de Jean Marie Qualquer Coisa, abriu a reunião às nove horas, tirou de sua pasta um fax que informou ter recebido na noite anterior e, sem qualquer comentário, anunciou os novos honorários da Diretoria.
Luiz Felipe, que mal dormira, prevendo exatamente aquele final de novela, lembrou-se de que há três anos tinha o maior salário da empresa, entre os brasileiros. No ano seguinte, sob a justificativa de que a sinistralidade, da qual era o responsável, tinha atingido níveis incompatíveis com o mercado, perdeu espaço para o Diretor de Informática. E agora, sentenciava o fax, ficava atrás do José Eduardo, Diretor de Produção.
Então, lembrou-se também de sua infância, quando, nos dias de chuva, ele e o primo Pedro brincavam com o jogo de corrida de automóveis e, depois de lançar os dados, a informação na pista de cartolina colorida dizia que ele tinha derrapado e devia voltar duas casas. Agora, ultrapassado pelo Diretor de Produção, ele estava voltando mais de duas casas.
Quando saiu da reunião, estava pensando se não devia abandonar a corrida, antes que outra derrapagem ou um obstáculo na pista provocassem um acidente mais grave.
Não era fácil tomar a decisão.
O salário ainda era muito bom, havia um carro novo a cada dois anos, com todas as despesas pagas, um ótimo seguro saúde, além de outras mordomias. Nem seria fácil encontrar uma boa colocação, aos quarenta e seis anos de idade, com um currículo confuso, no qual o que mais se destacava era o cargo de Diretor Técnico numa Companhia de Seguros que detinha menos de um por cento do total da receita de seguros no país.
E ainda pensava no pai, que trabalhara na empresa durante trinta e dois anos e, certamente, não gostaria de que o filho saísse.
Um almoço dominical na churrascaria, onde estava com Luísa, ajudou-o a tomar a decisão. A fila para entrar, a demora em ser atendido, os refrigerantes trocados e uma eternidade para receber a conta, agigantaram o estresse que já vinha experimentando, o que o conduziu a mais um discurso, tão idiota e improdutivo como os que vinha proferindo há tanto tempo.
A amiga, então, provocou-o, e, de brincadeira, sugeriu que fossem embora sem pagar.

(Continua no próximo domingo, 12/10)

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