Três últimos capítulos publicados:
017 - em 30/11
018 - em 04/12
019 - em 07/12
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Estavam outra vez no mesmo restaurante, na mesma mesa, fazendo os mesmos pedidos: Ernesto, o espaguete à bolonhesa, sem queijo, por causa da alergia; Luiz Felipe, o medalhão ao molho roquefort com batatas fritas; Guilherme, a casquinha de siri como entrada e filé de linguado acompanhado por uma salada verde; Rodrigo, para manter seus cento e quatorze quilos, três pastéis de entrada, um tornedor gigantesco com arroz de passas e mais algumas provas da comida dos colegas; Pedro Rosenbaum, peito de frango com legumes, sem batatas.
Também o mesmo decreto, baixado ditatorialmente pelo Diretor e alegremente cumprido pelos seus subordinados principais: era proibido falar sobre trabalho e, se alguém tentasse, os outros emudeceriam nos primeiros segundos para logo depois começar a conversar entre si, sem sequer olhar para o infrator.
Os assuntos não eram os mesmos, mas o objetivo de todos era rigorosamente o mesmo: todos gozavam todos, todo o tempo, não importando o que tivesse sido falado.
Guilherme, o principal orador, era o alvo preferido de todas as gozações. Como continuava dependente da TV, apesar do rigoroso tratamento ao qual estava se submetendo, dissertava o tempo todo sobre tudo, e os companheiros enriqueciam seu mundo cultural, aprendendo sobre os hábitos sexuais do Diabo da Tasmânia ou sobre os hábitos alimentares da baleia malvada, aquela que sacudia o leão marinho, dilacerando-lhe o pescoço. Guilherme, Luiz Felipe dizia, era o único brasileiro vivo que assistia ao Globo Rural, ao Globo Ecologia, ao Globo Ciência, ao Globo Repórter e, evidentemente, ao Discovery. E, segundo Ernesto, jamais seria pai, pois faltavam-lhe tempo e vontade política para produzir a descendência.
Rodrigo pouco falava. Luiz Felipe e Ernesto ainda não tinham chegado a um acordo sobre a causa do silêncio. Luiz Felipe dizia que ele era politicamente correto, com fortes resquícios de uma educação britânica, pois vivera boa parte de sua vida em Oxford, ou seja, sabia que era uma enorme falta de educação falar com a boca cheia e ele estava sempre com a boca cheia. Ernesto concordava que a boca vivia cheia, mas, explicava, isto acontecia porque ela era muito pequena. Guilherme, que não podia ficar ausente da discussão, dizia que Rodrigo fora vítima de um tremendo acidente genético, pois, com quase cento e vinte quilos e um metro e noventa e dois centímetros de altura, não podia ter aquela boquinha.
Se Rodrigo pouco falava, Pedro Rosenbaum falava menos ainda e, neste ponto todos concordavam, isto se devia ao trágico destino que lhe fora reservado, pois estava, há três anos, comendo peito de frango com legumes, sem batatas, travando uma gloriosa batalha contra os triglicerídeos. Luiz Felipe defendia a tese de que quem comia peito de frango com legumes, sem batatas, há três anos, não tinha mesmo o que falar. Ernesto, que, como Guilherme, não conseguia ficar calado, dizia que Pedro Rosenbaum estava caminhando celeremente para ser vegetariano, tendência que se observou muito cedo, quando, nos tempos da Escola Hebraica, tinha levado a namorada para atrás da moita e comido a moita.
Ernesto levava mais de uma hora no percurso de casa para o escritório e a usava muito bem ouvindo uma tal de Rádio Bobagem que lhe fornecia farto material para as histórias da hora do almoço. Como isto era muito pouco, acrescentava suas próprias bobagens, e contava que comprara um “home theater” por vinte e cinco mil dólares, ou que instalara um sistema de computador que controlava a intensidade da luz, da temperatura e do som, em todos os cômodos da sua casa, de mil e duzentos metros quadrados. Ninguém, obviamente, acreditava.
Luiz Felipe, livre da depressão, narrava suas façanhas sexuais, não se preocupando em exagerar ou não, porque, afinal, ninguém acreditava mesmo em coisa alguma. Sem citar nomes, porque se julgava um cavalheiro, falava de uma dermatologista viúva que o entupia com torta de abóbora antes de levá-lo para o leito, e de uma sacoleira separada, cujo sonho de consumo, já quase realizado, era conhecer todos os motéis do Rio de Janeiro. Eventualmente, falava de uma psicóloga que ele mandara para a Europa para se especializar em psicologia sexual...
Mas não falava nada de uma advogada, amiga de fé, irmã, camarada, que em sua fantasia estava sendo preservada, pura e imaculada, para um santo himeneu, diante do altar, sob o Coro dos Hebreus, de Verdi. nem tampouco estava entendendo muito bem o porquê daquela associação de idéias. Mercedes, Rosângela, Ana Maria, Luísa ...
Próximo dos cinqüenta anos, surpreendeu-se pelo pavor repentino da velhice desacompanhada, e, confuso, começou a se perguntar se aqueles pensamentos ainda seriam resquícios da depressão, questionando também se a solidão, consentida ou não, era algo para ser comemorado. A festa das abóboras e o périplo pelos motéis da cidade estavam ficando insossos. A euforia, que sua psicanalista definira como uma doença tão séria quanto a depressão, e que freqüentemente a sucedia, tinha acabado.
Luiz Felipe estava sentindo uma necessidade vital de não sabia o quê, vivendo a tradicional piada da psicanálise, ou seja, procurando no quarto escuro, o gato preto que não estava lá.
Decididamente, ainda que odiasse ter de admitir, o encontro daquela manhã com a executiva da agência de publicidade o tinha perturbado, mas ele não sabia porquê nem em quê. Já estava achando que agira como um perfeito idiota, ao agredi-la e extremamente perverso ao contar a história do assédio sexual de seu colega Paulo César.
Totalmente perdido, estava pensando em telefonar para os dois, quando voltasse ao escritório, não para pedir desculpas, pois não se sentia muito capaz disso, mas para tentar minimizar os estragos que sua imaturidade podiam ter causado.
Aí, voltou a pensar em Mercedes, concluindo que devia falar com ela antes de ligar para Teresa, ouvir seu conselho, pois ela, certamente o ajudaria a raciocinar, a colocar um pouco de ordem no tumulto que pairava em seu cérebro.
Sim, tinha de ser Mercedes e não Rosângela, que, Luiz Felipe sabia, antes que ele terminasse a primeira frase, à qual ela não prestaria atenção, diria que não havia incucação alguma que uma boa transada não resolvesse.
Ao voltar ao escritório, Suzana passou-lhe os recados e Luiz Felipe ficou particularmente satisfeito com a informação de que José Eduardo, o amigo dos tempos da Seguradora francesa, que o tinha ultrapassado na corrida de automóveis, havia telefonado. Pediu à secretária que retornasse a ligação e às sete horas da noite encontrou-se com ele no bar do restaurante que sempre freqüentava quando precisava pensar na vida e decidir que não decidiria coisa alguma.
José Eduardo estava mais gordo. Sofrera um sério acidente de automóvel, tivera o pulmão perfurado, perdera o baço e, por causa disso, parara definitivamente de fumar.
- Antes do acidente eu estava fumando três maços por dia. Se é que este acidente pode ter trazido alguma coisa de bom, foi parar de fumar. Aí engordei vinte quilos, perdi toda a roupa e estou com o colesterol lá nas alturas. Sem contar que também deprimi e, como desgraça pouca é bobagem, também me separei da Renata.
Luiz Felipe riu para não chorar. Era tudo de que ele precisava para o fim daquela noite. E lembrou-se de sua estréia como ator, na formatura do curso científico, quando seu personagem, de uma peça de Millor Fernandes, dizia que tinha sempre alguém pior do que nós.
José Eduardo também riu e disse que, apesar de tudo, estava feliz porque tinha sobrevivido ao acidente e à separação.
E acrescentou:
- Você não vai acreditar, Luiz Felipe, mas o pior não foi ter ficado no hospital por cinqüenta dias, com todo mundo achando que eu ia morrer. Nem foi a separação. O pior mesmo foi a depressão. Que doençazinha miserável.
- É verdade. Também passei por isso. Não sofri nenhum acidente, mas enfartei e deprimi. E concordo com você: não há nada pior do que depressão. Um amigo, que passou mais de dois anos deprimido, me disse que era melhor ter câncer, porque você tem a solidariedade dos amigos. Já na depressão, que pouquíssimas pessoas entendem, todo mundo se afasta de você... Uma vez, ouvi um colega cochichar com outro, quando eu estava chegando, que lá vinha o cara com a nuvenzinha negra sobre a cabeça.
Luiz Felipe percebeu que a conversa estava parecendo com as reuniões dos neuróticos anônimos, onde ele fora três ou quatro vezes, na tentativa desesperada de se curar. Ele e o amigo José Eduardo, ali, no bar do restaurante, enchendo a cara, como diria Ernesto, eram os ex-deprimidos dando seus testemunhos para ajudar os infelizes deprimidos.
José Eduardo parecia estar entrando na tal da euforia, falando muito e apressadamente.
- O mais sério é a que a gente não sai do ar, quer dizer, a gente está perfeitamente consciente de que não há motivo para se sentir do jeito que a gente está se sentindo, mas não consegue sair do buraco. Todo mundo me dizia que eu tinha tido uma sorte enorme em não ter morrido no acidente. Renata, minha mulher, querendo ser engraçadinha, para me ajudar, dizia que eu tinha perdido o baço e não o braço, e que eu devia era estar soltando foguetes.
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Capítulo 21 - Prevista a publicação para 14/12.
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