domingo, 7 de dezembro de 2008

As Gralhas Enfurecidas (019)

Três últimos capítulos publicados:
018 em 04/12
017 em 30/11
016 em 25/11
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Ele ajeitou outra vez o laço da gravata e tentou falar. Mas não chegou a completar a primeira frase, porque Luiz Felipe o interrompeu bruscamente: - Lembrei ! Já sei onde nos conhecemos ! Foi numa festa de aniversário. Lembra ? Você disse que era professor de História Egípcia e me convidou para conhecer uma coleção de reproduções de hieróglifos no seu apartamento.
Antes que o dublê de Diretor de Artes e professor de História Egípcia fizesse qualquer comentário, Luiz Felipe levantou-se, despediu-se e marcou a data da próxima reunião. Teresa sugeriu que o novo encontro fosse na agência, quando ele teria a oportunidade de conhecer o sócio principal e os colegas que estavam trabalhando na campanha.
Luiz Felipe concordou, pensando que, afinal, era justo que o segundo tempo do jogo fosse no campo dela. Enquanto esperavam o elevador, não resistiu e, sem olhar para Paulo César, perguntou à Teresa se ela já tinha ido ao apartamento dele, fazendo uma pausa teatral antes de justificar a pergunta:
- Para ver os hieróglifos...
Teresa estava convencida de que fizera um bom trabalho, de que se comportara muito bem, não aceitando as provocações de Luiz Felipe, mantendo-se calada e absolutamente tranqüila. Mas estava preocupada. E enquanto voltava para a agência, pensava que precisava falar com seu chefe, porque havia fatos novos que poderiam alterar o rumo dos acontecimentos.
A conta da GLS era realmente muito importante, porque o que estava em jogo não era somente aquela campanha do lançamento das novas plataformas, mas a possibilidade de a Mark and Spencer ganhar o primeiro cliente na área de seguros e o primeiro possível cliente, era nada menos, do que a terceira Seguradora do país, preparando-se para aumentar sua participação no mercado e alcançar o primeiro lugar nos próximos cinco anos.
A aproximação com a GLS fora conseguida através do Diretor de Artes, que conhecia o Diretor de Marketing da Seguradora, e com quem, pelo menos é o que fora dito, ele jogava golfe uma vez por semana.
Quando os primeiros contatos foram feitos, Charles Spencer, o Partner in Charge da agência, indicou Teresa para ser a coordenadora do projeto e ela percebeu que tinha diante de si uma ótima oportunidade para mostrar seu talento.
A reunião daquela manhã, contudo, a deixou preocupada. O “atrazo”, com zê, fora uma tremenda idiotice e o revisor seria convenientemente advertido. A tal frase de abertura, com o emprego do “calcule” para apresentar uma plataforma de cálculo, ela agora concordava, não era das mais felizes, merecendo, talvez, a nota negativa recebida. Estes fatos não eram graves, podiam ser consertados.
Mas havia o Paulo César que, inventando aquela bobagem de professor de História Egípcia, tinha logo de se engraçar com quem ia praticamente decidir a escolha da agência. O que pensaria Luiz Felipe ?
O que fazer ? Tirar o Diretor de Artes do projeto ? Charles Spencer aceitaria, se justamente Paulo César fora quem conseguira o contato inicial ? Fazia sentido exclui-lo, se ele jogava golfe semanalmente com o Diretor de Marketing da GLS ? Teresa assustou-se com o pensamento seguinte: será que o Diretor já tinha ido ver a coleção de hieróglifos, que não existia ? Se isto tivesse acontecido, ou estivesse acontecendo, os méritos da obtenção da conta iriam todos para o falso professor de História Egípcia, não importando os “atrazos” constantes no seu texto.
Entrou em sua sala acompanhada por Paulo César, que permanecera calado durante toda a viagem do centro da cidade até Botafogo. Mas, agora, a sós com Teresa, sem a presença do motorista, disse que queria conversar.
- Em primeiro lugar, Teresa, quero lhe dizer que realmente eu conheci o Luiz Felipe numa festa de aniversário de uma amiga mas não me lembro muito bem desta história de hieróglifos...
Teresa o interrompeu dizendo que ele não tinha que lhe dar satisfação alguma sobre sua vida particular e não estava nem um pouco interessada no que ele fazia ou deixava de fazer.
E, com muito cuidado para não ofender, e, como sempre, tentando ser profissional, acrescentou:
- Se você se encontrou ou não com ele, se ele foi ou não foi a sua casa, eu não tenho nada com isso. Ele não é meu marido, nem você é meu marido... O que temos que pensar é se, e como, isto pode afetar o nosso projeto, ou seja, se o Luiz Felipe vai se aproveitar disso para me prejudicar, se ele vai...
Paulo César não permitiu que ela continuasse:
- Disso o quê, Teresa ? E prejudicar você, por quê ?
Fez uma pausa, interfonou para a copa, pediu café, tirou a gravata e, muito seguro, continuou:
- Se você pensa que aquela babaquice do atraso com zê, e tudo mais que ele falou, foi para prejudicar você, está redondamente enganada. Eu já disse que conheço os homens ? Pois é. O que ele estava fazendo é se exibir para você, chamando sua atenção, como um pavão abrindo as penas.
Teresa riu, sentindo-se descontraída.
- E, finalmente, minha cara, quer saber ? Ele está muito a fim de você.
- Que idéia, Paulo César... que idéia !
Charles Spencer chamou os dois para ouvir o relato do primeiro encontro com o futuro cliente.
Teresa deixou que Paulo César falasse, mesmo sabendo que ele não era tão objetivo quanto ela, sempre acrescentando pormenores que não tinham nada a ver com o assunto principal. Mas isto não tinha importância, porque, afinal, Charles Spencer gostava dele e da maneira graciosa com que ele contava suas histórias. E confiava muito nele.
Além disso, Teresa estava meio distante, remoendo tudo que ouvira de seu colega e, como um computador que tivesse travado, não conseguia ir em frente, sem deletar a afirmação final, quase novelesca, de que Luiz Felipe estava a fim dela.
O sócio encarregado convidou-os para almoçar. Teresa passou antes em sua sala e, vendo o velho Aurélio dormindo sobre a mesa, não resistiu e acordou-o. Paulo César, esperando na porta, disse que ela não precisava procurar porque atraso era com esse mesmo. Mas Teresa não estava mais preocupada com o atraso e estava na letra efe.
O Aurélio, então, lhe explicou que “estar a fim de alguém” significava estar querendo namorar ou fazer amor.
Foi almoçar.
Tentou se recompor, colocar de lado todos os pensamentos confusos que lhe estavam incomodando desde a hora em que encontrara Luiz Felipe... por que ele a impressionara tanto ? Será que estava tão carente assim, a ponto de acreditar em bobagens do tipo “amor à primeira vista”? Ou seria “uma forte atração sexual à primeira vista” ? Na sua idade ?
Mas, seu computador travara outra vez e a mensagem não saía do monitor: por que Paulo César dissera que Luiz Felipe estava a fim dela ? E se fosse verdade ? E se ela também estivesse a fim dele ?
Até que ponto isto atrapalharia a continuação do processo ? Até que ponto isto prejudicaria os seus planos de carreira na Mark and Spencer ?
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Capítulo 20 - Prevista a publicação para 10/12.

Um comentário:

Anônimo disse...

Tava na cara... Luiz Felipe vai pegar a Tereza. Quando ? No próximo capítulo ?