domingo, 7 de junho de 2009

A Salvo, Só o Niemeyer

Acho que nesta semana não houve conversa que não começasse ou terminasse pela tragédia do Airbus da Air France. Não me lembro de acidente que tenha mexido tanto com as pessoas, mesmo as que não tinham parentes ou conhecidos no voo. Parece que vieram à tona de uma só vez todos os nossos medos, superstições, síndromes e premonições. Amigos telefonavam, os relatos se sucediam. Eram lembradas histórias de quem escapou (ou morreu) por acaso, as coincidências, os golpes do destino, as trapaças da sorte. Por que os acidentes aéreos nos ameaçam tanto ? Em matéria de mistérios e riscos, a conquista do espaço talvez seja equivalente hoje à aventura épica cantada por Camões e Fernando Pessoa dos antigos navegantes que se atreviam ao "mar ignoto".
Há sempre alguém para dizer que é um transporte seguro, que as estradas e as ruas das cidades são mais perigosas e que para um milhão de passageiros apenas um morre em acidente aéreo, enquanto mais de 200 poderão ter o mesmo fim indo ou vindo do aeroporto. Não adianta. Bessas horas, acredita-se mais em Vinícius de Moraes do que nas estatísticas. O poeta achava que não podia dar certo um troço quem tem motor a explosão, é mais pesado do que o ar e foi inventado por um brasileiro.
Leio quee 40% das pessoas têm "fobia de avião", que é tratada inclusive como doença. Muitos, minha mulher, por exemplo, sofrem quando têm que viajar. Já eu gosto, sou metido a corajoso, não tenho medo de voar - a não ser de avião, claro. Falando sério, não sou daqueles fóbicos que evitam passar até perto de aeroporto. Confesso, porém, que algumas de minhas crenças ficaram abaladas agora. Sempre viajei despreocupado, mesmo com tempo ruim, porque me disseram uma vez, e eu fiz questão de acreditar, que raio não derruba avião, que turbulência só causa desconforto e que até as temíveis cumulus nimbus eram simples obstáculos dos quais se podia desviar a tempo. Alguns entendidos continuam afirmando isso, mas acho que cada vez menos.
O mistério e a indefinição em relação às causas deste acidente agravram a angústia geral. O que mais me impressionou nas especulações foi a hipótese aterradora levantada por um piloto de Airbus que conhece aquela rota. Ele disse que o desastre poderia ter sido causado pelo choque do aparelho com um "grande bloco de gelo". Isso me fez pensar que estaríamos assim diante de uma réplica aérea do maior acidente marítimo da história: o naufrágio do Titanic. Já imaginaram ?
Obcecado pelo assunto, fui jantar com alguns amigos numa espécie de "celebração da vida", como disse um deles. Éramos cinco e nos sentíamos como sobreviventes, pois cada um já tinha feito um ou vários boos Rio-Paris, e só por acaso não estávamos naquele que caiu. Chegamos então à conclusão de que a salvo de desastre aéreo só mesmo Oscar Niemeyer, que não voa nem amarrado. Vai ver que é por isso que ele tem 102 anos.

3 comentários:

  1. Ivanildo, muito bom e eu tbm não gosto de voar, de avião.

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  2. Odiatis Misantropoulos7 de junho de 2009 às 10:31

    ótimo texto. só uma observação: o maior acidente marítimo nem de longe foi o naufrágio do Titanic (pouco mais de 1500 vítimas) e sim o Whilhelm Gustloff navio cruzeiro do 3 Reich afundado pela marinha Russa no mar Báltico durante a segunda guerra mundial (em uma missão de evacuação de civis e militares) com número de vítimas superior a 9000!

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  3. Alberto del Castillo7 de junho de 2009 às 10:57

    Muito bom comentário. Uma viagem, assim como a vida, é cheia de incertezas. O vôo de avião é um ato de fé. Nossa vida está nas mãos de um estranho que chamam de piloto e o veículo reconhecidamente mais pesado que o ar, fica horas desafiando a lei da gravidade.
    Quando dizemos que é transporte seguro,que nem raio nem turbulência derrubam o avião assim como Cumulus Nimbus são facilmente evitadas, saímos do campo da fé e passamos à área plenamente confiável da ciência chamada estatística.
    Os números nos dizem que se realmente temos pavor de viagens só devemos viajar de avião.

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