segunda-feira, 13 de abril de 2009

Modéstia à Parte - Zuenir Ventura

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, três dos mais bem-dotados egos do país, acabam de participar de uma divertida feira de vaidades. Lula fingiu achar que não merecia os elogios que lhe fez Barack Obama, apontando-o como "o cara", "o mais popular político do mundo". Com isso, FHC acabou sofrendo um baque no seu narcisismo, sendo ele o mais preparado para ouvir afagos em língua estrangeira. Antes, porém, simulou contentamento pelo sucesso internacional do rival. Declarou que o episódio era positivo para o país. "Fico contente. Acho bom que o Brasil tenha um político popular."
Em seguida, não se conteve, mandou às favas os modos diplomáticos e, modéstia à parte, disparou: "Com todo o carisma do presidente Lula, eu ganhei dele no primeiro turno. Duas vezes". Sempre competindo entre si desde quando eram aliados, os dois são a versão atual dos invejosos Esaú e Jacó, que brigavam já no seio materno. Esses gêmeos bíblicos foram transpostos por Machado de Assis para o seu romance homônimo como representações simbólicas do Brasil, na época dividido entre monarquia e república, hoje entre governo e oposição. Gilmar Mendes, por sua vez, cheio de moral. recomendou à Polícia Federal "modéstia, cuidado e humildade". Ele a considera muito "midiática", Só faltou sugerir que a instituição policial se inspirasse no seu exemplo de recato e discrição. Como todo mundo sabe, se o presidente do STF não sai da mídia, se não se cansa de manifestar-se fora dos autos, não é por vontade própria, mas porque os repórtres não lhe dão sossego. Midiáticos são os outros.
O mais engraçado é que esse festival é apenas um aperitivo. Até o próximo ano, ainda vamos ouvir a voz dos três falando de tudo, principalmente deles mesmos, modestamente. Haja holofotes.

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