
Com a eleição de José Sarney para presidente do Senado, a política nacional deixou para trás o cabresto e a peixeira e entrou de chofre na modernidade. É tempo de mudança, de fardão farfalhante e bigode engalanado. De união de todos com todos para que os coronéis se dêem bem. Ninguém melhor para encarnar o vagalhão reformista que um nababo peemedebista de alma tucana convertido ao petismo. Com 78 anos de encarniçada defesa do interesse próprio, e depois de tantas peripécias manhosas em benefício de sua larga grei de agregados, o brônzeo estadista que veio do Maranhão poderia ser tentado a largar a rapadura. Poderia, quem sabe, se refestelar de jaquetão sobre os louros encardidos da glória. Ou dedicar-se a dedilhar a lira e a atirar sonetos fesceninos nas passantes. Mas, não. A religião do serviço público, o coro de assessores, o clamor do baixo clero e o carrão com chofer falaram mais alto. Antes que se pudesse gritar Cuidado!, lá estava o sagaz acadêmico, flagrado ainda mais uma vez com o bigode na botija, cumprindo na calada da noite o lúbrico dever cívico de zelar para que tudo permaneça para sempre como está.
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(Texto publicado na revista Piauí, sem indicação do autor)
Um comentário:
Para voltar ao passado não precisaríamos ressuscitar politicamente um dos piores presidentes da história da nação, bastaria desproclamar a república e trazer a família imperial de volta.
D. Pedro II, como sabemos, morreu pobre tendo se recusado receber o estipêndio oferecido pelos republicanos.
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