segunda-feira, 6 de abril de 2009

Lado a Lado - Veríssimo



Encosto ou não encosto ? Só o joelho. O que pode acontecer ? Ela dizer "Mister Lula, please !" Aí eu recolho o joelho, peço desculpas, "aimsórri, aimsórri" e pronto. Se eu soubesse falar inglês, explicaria. Sabe o que é, Elizabeth ? Eu estava aqui pensando: quando é que, lá em Pernambuco, eu ia imaginar que um dia estaria sentado ao lado da rainha da Inglaterra ? Não sei quem é que me botou aqui paea tirar esta fotografia do G-20. Não acho que tenha sido um pedido seu. "Quero o bonitinho de barba à minha esquerda." Claro que não. Mas o fato é que estou aqui e o Barack está aí atrás em algum lugar, de pé e se perguntando o que eu tenho que ele não tem. O Sarkosy não deve nem estar aparecendo. Ficou atrás da Merkel e não vai sair na foto. E eu aqui ao seu lado, na primeira fila. Isso significa muito, viu Elizabeth ? Lá na minha terra vai ter gente se mordendo de raiva. Onde já se viu, aquele retirante nordestino que nem fala direito sentado à esquerda da rainha da Inglaterra ? Quando eu me elegi, muita gente ficou horrorizada: como é que vai ser quando ele, um torneiro mecânico tiver que nos representar num jantarr oferecido, por exemplo, pela coroa inglesa ? Vai ser servido na cozinha, para não dar vexame na escolha dos talheres. E aqui estou eu, sentado ao lado - com todo o respeito - da coroa inglesa em pessoa. Se foi o protocolo que me botou aqui, ele acertou, viu Beth ? Você, queira ou não, não é só a rainha dos ingleses, é, simbolicamente, a rainha de todos os louros de olhos azuis do mundo, incluindo o Barack. De todos os bandidos que causaram esta crise e hoje nos infernizam a vida. E, de certo modo, eu sou o seu oposto. Sou uma espécie de rei republicano dos não louros do mundo - ou pelo menos deve ter sido essa a ideia do protocolo aos nos botar lado a lado. Todos os outros chefes de Estado desta fotografia seriam dispensáveis. A foto poderia ser só de nós dois e estariam todos representados. E isso significa outra coisa também, viu Beth ? Eu não me contentei em ter nascido na miséria, no Nordeste, e quis mais. Não me contentei em ser um torneiro mecânico em São Paulo e quis mais. Não me contentei em ser um líder sindical e quis mais. Não me contentei em perder eleição atrás de eleição, insisti e acabei presidente. Agora estou aqui, lado a lado com a rainha da Inglaterra, num dos pontos mais altos da minha carreira, e também quero mais. Por isso minha perna se moveu e meu joelho encostou no seu. De certa forma, o movimento da minha perna foi o passo final da caminhada que começou em Pernambuco, tantos anos atrás. Já que, ao contrário de você, Beth, não posso ficar no poder para sempre
(O Globo, 05/04)

2 comentários:

  1. O próximo diálogo desse a ser reproduzido por Veríssimo será com Deus.

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  2. Alberto del Castillo6 de abril de 2009 às 07:49

    Esta coluna do Veríssimo foi encomendada pelo Sarney Greenhalgh Roussef. È uma das mais belas elegias de um político brasileiro, enquanto no poder. Pena que seja Colorado, gostaria que escrevesse assim sobre o Flamengo.

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